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id da página: 2427 Evangelho de Tomé - Logion 7

Evangelho de Tomé - Logion 7

Jesus disse: feliz é o leão que ao homem devora, pois o leão se converterá em homem e ímpio fica o homem que o leão devora e deixa que se converta em homem.

EVANGELHO DE JESUS: 1P 5,8; Ap 4,7


Roberto Pla
Uso de linguagem figurativa induz muitas vezes à descrença ou a interpretações levianas.

Interpretado corretamente: Quando o homem deixa os inimigos da alma — pecados, ignorância, etc. — o dominarem, o homem psíquico — a alma — fica maculado, envelhecido e o leão (inimigos da alma) assombra a Vida pneumática, luminosa da alma do homem, e assim se pode dizer que o leão devora o homem até assumi-lo totalmente.

Exemplos dos Salmos: Salmo XXXV, Salmo LVII, Salmo XXII, Salmo 17,12

No que se refere ao sentido metafórico com que se emprega o verbo "devorar" no logion, não nos surpreende pois é hábito comum nos evangelhos expressar-se em forma figurada com respeito ao alimento, a fome, o jejum, etc... O leão de nosso logion, ao "devorar" o homem o priva, em sua função de inimigo da alma, das luzes do conhecimento espiritual, isto é, o macula ou sombria, o faz opaco à percepção da luz de Cristo e em consequência o arrasta à degeneração até que termine convertido em "leão", quer dizer, em um homem unicamente hílico. No sentido totalmente oposto, mas com o mesmo uso metafórico do alimento se expressa Jesus Cristo quando afirma, instituído em sabedoria: "Eu sou o pão da vida. O que venha a mim não terá fome".

Levados pela importância desta oposição que se manifesta como conhecimento da sabedoria frente a ignorância do Deus vivo, ou melhor, como consequência da permanente oposição luz-trevas no interior do homem são muitos os textos do AT que descrevem a inimizada do leão (estendido ao urso, às vezes) com o Deus vivo, o Messias vivente, em sua posição de inimigo da alma. O autor das Lamentações descreve muito bem esta oposição em Lam 3,6 e Lam 3,10. Esta mesma inimizade do leão (e o urso) com o Deus vivo, a expressa Davi quando muito jovem diz ao rei Saul: 1Samuel 17,36.

O testemunho mais decisivo da significação metafórica dos leões como personificação das forças inimigas que movem a alma a caminho do ímpio, que dizer na senda hostil ao Deus vivo, o proporciona o relato de Daniel no fosso: Daniel 6,27-28. O Deus vivo, o deus de Daniel, não é outro senão o Filho do homem que nele e em todo homem mora e existe, e a cuja luz não é possível a nenhum leão desta espécie causar nenhuma ferida em sua alma.

Por mais que os inimigos da alma, os leões testamentários sejam, segundo isto, inimigos do messias, do Filho, segundo a promessa, que o Rei Davi, ungido, vê instalado nele como ''seu Senhor e não como seu filho, e por isso, por ser inimigos do Senhor, quer YHWH convertê-los em escabelo de seus pés, segundo a ordem pronunciada no Salmo 110,1-2.

Estes e não outros são os leões, os inimigos da alma, isentos de conhecimento e por cuja ação se afastam os homens do Deus vivo, do Cristo vivente, de quem são templo e na medida que são, até o ponto de que cada homem pode converter-se como eles, por degradação, em leão devorador.

Jean-Yves Leloup

  • Alguns veem neste leão que o homem pode comer ou que pode comer o homem uma imagem da libido — da pulsão vital. A dominar: "a comer". Assimilá-lo significaria então a humanizá-lo. Transformá-lo em força de amor. Por outro lado, pode-se ser manipulado por ele — ser comido — condicionado por esta mesma libido e se tornar seu escravo.
  • O leão no pensamento gnóstico é também o ego e o mental que nos ocupa e que "devora" nossa verdadeira identidade que é o Si. Feliz o "pequeno eu" integrado no Si, aí encontra seu lugar; mas infeliz o homem cujo ego, (este "pacote de memórias", dizia Krishnamurti) lhe faz esquecer o Si: então se torna leão — ego centrado —, que conduz a ele e devora tudo que o cerca.


Émile Gillabert

  • O leão comido pelo homem se torna idêntico a ele: o ato vai no sentido de uma progressão, de um desabrochar, de um desdobramento de energia.
  • O homem que se deixa comer pelo leão regressa; está na via descendente, vai de retorno ao indiferenciado.
  • VIDE Evangelho de Tomé - Logion 77